COBERTURA-CACHOEIRA DOC

ABERTURA

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Por Guilherme Sarmiento

Aos poucos a Praça Teixeira de Freitas foi se enchendo de estudantes, moradores e convidados para mais uma edição do Cachoeira Doc. O movimento das pessoas em direção àquele epicentro da cinefilia integrava-se ao próprio movimento do rio Paraguaçu que, ao fundo, enchia as margens suspenso pela enfraquecida gravidade de uma lua minguante enquanto, mesmo sob a influência esvaziadora da greve, o tradicional festival da UFRB atraía para si parte significativa da comunidade acadêmica moradora da cidade. Entre o fluxo de pessoas e o movimento da água sobressaía a presença de um cocar. A meia-lua de penachos brancos agitava-se entre as cadeiras de plástico, enquanto a tela aguardava o início das projeções. Após as apresentações de praxe, com as falas do Reitor da UFRB, Silvio Soglia, e o Secretário de Cultura de Cachoeira, José Luiz, Cacique Babau justificou plenamente seu protagonismo naquela primeira noite onde as obras enfocavam a luta dos índios tupinambás pelo resgate de suas terras.

Abrir o Cachoeira Doc com A retomada, de Leon Sampaio, e Tupinambá – o retorno da terra, de Daniela Fernanades Alarcon, portanto, obteve certamente um efeito didático sobre a platéia. O festival organizava-se através de um sentido de afirmação histórica onde o índio se colocava como “origem”, ou melhor, o discurso articulado do princípio. E este “princípio”, dentro do contexto de elaboração de uma curadoria, era não somente a expressão de uma sincronia do evento com os marcos definidores de nossa “identidade” cultural primeva. Dizia respeito também a sobreposição de uma topografia onde o olhar da câmera engajava os espectadores na questão indígena. Neste sentido, os dois filmes cumpriram o seu papel, ao revelar, através de um tema específico, o drama que nos constituiu como “nação” a partir de um posicionamento muito claro na causa do Cacique Babau e do seu povo, remanescentes indígenas e quilombolas da Serra do Padeiro, no sul da Bahia. Nela se vislumbra a violência de nosso processo civilizatório no qual as vítimas do desterro vieram a se tornar a força braçal, motora, da monocultura do cacau e das levas de “operários” necessárias para a construção das grandes metrópoles brasileiras .

Obviamente este engajamento irrestrito de Leon Sampaio e Daniela Alarcon à causa indígena fez com que algumas contradições expostas sutilmente durante as filmagens fossem suprimidas ou deixadas à margem do discurso. Evitou-se com isso tensionar a abordagem de um tema tão delicado e, por vezes, espinhoso, que não envolve somente a retomada da terra, mas a reapropriação e reelaboração de uma identidade. Ao contrário de Carapiru, personagem de Serras da desordem, que não se deixa captar, apropriar, pelas lentes de Andrea Tonacci, manifestando-se através de uma opacidade desconcertante, Cacique Babau tem sua figura solar exposta sem o apoio de uma sombra, domina a cena com a eloquência de sua fala e a consciência do aparato midiático em torno de seus gestos. Sua presença elementar reflete mais o impasse do que propriamente a solução em meio a um redimensionamento do papel da natureza no humanismo contemporâneo. Precisaremos retornar ao “idílio” para sobreviver? Resgatar de nossa memória o “autóctone” para justificar a preservação de nossos recursos naturais? Refundar um reino de encantados para com ele restituir o protagonismo da floresta? Ou isso dependerá da construção de uma consciência nova e desgarrada do passado, menos uma imagem de refluxo edênico do que uma necessidade forçada pela brutalidade do presente, menos um conceito articulado de “identidade” e mais uma imersão nas pulsações anímicas do ser?

Enquanto a tela era desmontada, o projetor guardado, as pessoas retornavam a suas casas para uma justa noite de sono; o rio Paraguaçu escoava lentamente em direção ao mar. Pulsante, a vida e seus artifícios tecnológicos e naturais respiravam em consonância para animar os sonhos dos homens, povoando o mundo de simulacros.

Abaixo uma entrevista com Amaranta Cesar sobre a programação da Sexta Edição do Cachoeira Doc

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