COBERTURA – CACHOEIRA DOC

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL

02

Por Guilherme Sarmiento

Ana/A Loucura Entre Nós

Dentro do Cineteatro Cachoeirano respirava-se o ar pesado e expectante de uma sala lotada, que acompanhava a abertura da mostra competitiva com grande interesse. Dois filmes baianos foram os selecionados para abrirem oficialmente a principal vitrine do festival, que este ano conta com a participação de sete longas e médias metragens, muitos deles já premiados, como Mais do que eu possa reconhecer, de Allan Ribeiro, ou cumprindo a agenda de lançamento de obras com esse perfil através dos canais de exibição espalhados pelo país. Na noite, foi programada a projeção do curta-metragem Ana, de Camila Camila, aluna da UFRB, e A loucura entre nós, de Fernanda Fontes Vareille. Este último já circulava dentro e fora do Brasil, mas ainda não havia sido exibido na Bahia. Ambos os filmes, de formas distintas, fizeram valer a mão das diretoras que com sensibilidade apontaram suas câmeras para o corpo e a mente de mulheres, criando um ambiente favorável para as sempre pertinentes discussões de gênero.

O curta Ana delimita uma aposta da curadoria do Cachoeira Doc, especialmente firme na edição de 2014, de flexibilizar o conceito de documentário, apostando em obras que colocam em jogo aspectos do cinema direto com os de uma dramaturgia reconhecidamente alinhada com o regime “ficcional”. Se observado através da mise-en-scène, especialmente elaborada por planos sequências fluidos e belos, o filme do Coletivo Gaiolas tende para uma ficção. Vemos a mão firme de Letícia Ribeiro acompanhando a coreografia e pontuando objetos dentro de uma rota prévia, que atravessa cômodos como quem viaja no tempo e, com esses rompimentos da lógica do “estar no mundo”, desnaturaliza o corpo, o ambiente, produzindo uma visão iluminada do fantasma. Da mesma forma, o trabalho de som realça esta fantasmagoria, suspendendo a materialidade da vida nas percussões distorcidas da memória. Mas… E o documentário? O gênero se afirma aqui pela presença ostensiva do aparato, da teatralização dos movimentos e da presença da diretora como personagem de si mesma. Nesta chave, o curta pode ser visto como a autoetnografia de uma subjetividade. O próprio nome ANA funciona nesta obra específica como uma espécie de anagrama dos espelhamentos do feminino propostos pelo filme, desdobrado diante do espelho, mas também replicado pelas presenças de mãe, filha e avó colocadas em desfile na narrativa.

A loucura entre nós, de Fernanda Fontes Vareille, mostrou o quão difícil é falar de determinados temas sem recair, por vezes, em um humor involuntário que, neste caso, manifestava-se por vezes como uma frivolidade sacudida aos poucos pela vergonha. A cena dos internos cantando o hino nacional abraçados diante da câmera retirou risos da plateia, assim como outros trechos no qual se mostrava o cotidiano de um hospital psiquiátrico. Alguns riam desbragadamente diante de pessoas dopadas por altas doses de remédios tarja preta – não posso aqui me excluir desta lista –, no entanto, a expressão inconveniente deixava um resíduo amargo na boca após o prolongamento da cena. Esta reação me suscitou um questionamento ético, por certo, mas também pensamentos referentes a irrupção do riso como desconcerto ou percebê-lo como um direito concedido por determinado contexto, determinados acordos tácitos entre realizador e público. Acompanhando durante quatro anos o cotidiano de duas internas cujas vidas foram destroçadas pela bipolaridade, o filme envolve os espectadores na história destas mulheres atormentadas, vítimas de um mal que as empurra constantemente para os confins da autodestruição. Mesmo assim, em sua construção e busca por efeitos, o filme não abriu mão de certas expectativas com relação a loucura e sua figuração, sua representação, seu enquadro por vezes convencional. Em um mundo onde a depressão se tornou uma epidemia, seria melhor afirmar que a loucura não está entre nós, mas dentro de nós. Aí não teríamos motivos para riso…

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