COBERTURA CACHOEIRA DOC

MOSTRA COMPETITIVA

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Por Tiago de Melo Araújo

Nova Dubai

Nova Dubai é um média metragem que toma forma a partir de indefinições, se constrói no limiar da ficção e do documentário, e se apresenta no entroncamento de situações comuns e nos questionamentos e cenas explícitas que compõem a sua diegese quando no cinema costumam ser ocultadas.

Os limites do cinema são colocados em colapso no momento em que um dos personagens cita seus filmes prediletos, podemos ter um exemplo banal de até onde o cinema já chegou sem causar mais sobressaltos. Em clube dos suicidas – que tem sua sinopse revelada pelo personagem – vemos algo que só pode ser explicitado através de uma construção fílmica, não é comum pessoas se suicidando de forma deliberada para o entretenimento. O terror e a violência que causam desconforto, encontrou sua forma no cinema tutelado pela arte e pela segurança da representação, a ficção constrói essa ponte amigável entre aquilo que queremos e podemos ver sem culpa.

O diretor por mais corajoso que possa parecer ao apresentar sua mãe, seus amigos e parte de seu cotidiano ainda busca de maneira bem acentuada essa dicotomia, trata-se de um respiro possível proporcionado pela ficção, um provável afastamento diante das incertezas daquilo que é colocado. Os jovens de Nova Dubai são amparados pelo côncavo da arte, são personagens que se apresentam em uma construção fílmica, o cinema como forma de arte, costuma se fazer mais permissivo que a própria vida.

Gustavo Vinagre não oculta e nem pondera, seu filme ganha força e só se faz possível ao tensionar esses limites. Seus impulsos pueris e sua própria vaidade são redimensionadas pelo seu próprio corpo e realidade presentes em cena, o diretor/ performer despe-se e o sexo se torna um convite para retratar o grito de uma geração sem peso histórico, jovens de classe média que questionam o espaço construído por eles mesmos, o dedo apontado para a própria cara, reverberando na busca por semelhança.

Ao se colocar no filme, o diretor tenta ir um passo adiante do que foi feito recentemente em Shortbus, Anti-Cristo ou O estranho no Lago, filmes que possuem o sexo cada vez mais explícito em suas narrativas. Em um ato político, dissidente e histriônico, Vinagre busca com essa segurança dominar o seu discurso, ciente do seu corpo e do espaço que quer galgar, cria um filme que pode ser visto de maneira subjetiva por diferentes camadas óticas, desde o riso contido à vergonha pudica, mas que não consegue graus de identificação devido aos seus diversos tons. O convite da discussão a partir do sexo é negado devido a profusão de ideias.

Assim, Nova Dubai habita esses dois espaços que são mais estreitos do que parecem, a realidade e a ficção não podem ser mensurados com precisão cirúrgica em um corpus híbrido e difuso, não somente em sua forma mas, principalmente, em seu conteúdo. O seu final lacônico que fecha as portas do discurso fílmico ao encerrar a narrativa é belo e singelo, mas demonstra uma fraqueza ao colocar toda a desconstrução desse espaço em outro viés. Em um filme que sobra coragem para existir, mas falta coragem para resistir.

2 thoughts on “COBERTURA CACHOEIRA DOC

  1. Leandro Correia Alves

    Parabéns pela crítica CineCachoeira! vi esse filme em Curitiba o texto me deixou querendo rever. Já está disponível na internet?

  2. breislima

    bem preconceituosa a crítica. ”a diversidade de tons” é um problema para a compreensão de quem quer dominar o filme, mas parece que o filme quer ser mais obscuro do que claro e dialético, e aí tá a sua potência. o filme incomodou, talvez, e o crítico não conseguiu responder à altura. o diretor não aparece fazendo sexo para dar um passo além de outros filmes, ele está fazendo ESSE filme. tem um esforço aqui bem bobo de colocar o gesto dele dentro de uma história da arte recente, como se resumisse-se a isso. o último parágrafo eu realmente não entendi o que o crítico quis dizer.

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