MATE-ME POR FAVOR

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Por João Marciano Neto

O filme de Anita Rocha da Silveira desperta mais curiosidade do que corresponde às expectativas originalmente criadas. Mate-me por favor começa com um drama e suspense bem promissor e uma protagonista que rapidamente conquista a atenção do público, entretanto, ao flertar com uma linguagem lynchiana e se comunicar levemente, mesmo que inconscientemente, com obras independentes, como Excision, acaba se perdendo entre o suspense psicológico, o mistério e o estranho humor que se apresenta em constante contraste com a obra como um todo. Não se pode negar que a trama seja bem escrita e que os momentos de maior seriedade dão grande força ao filme, mas a mistura não tão harmônica dos gêneros cinematográficos confunde bem mais o espectador do que o roteiro lacônico que não fornece respostas, nem indícios de possíveis leituras, e se encerra ainda mais aberto do que os primeiros minutos iniciais. Se faz necessário esclarecer que em determinado grau essas características não são sempre um problema, por gosto pessoal aprecio que certas obras permitam que o espectador complete o sentido e jogue com sua capacidade imaginativa, mas o que ocorre em Mate-me por favor é que as subtramas e o mistério central do filme não se concluem de forma alguma. Ou melhor, para a frustração, positiva ou negativa (talvez mais esta segunda do que a primeira), nada é esclarecido. Nem mesmo a relevância da bizarra figura da pastora “pop star” que, de longe, é o elemento que mais desvia a atenção por conta da extravagância desnecessária de suas aparições.

O elenco, por sua vez, é surpreendente. Valentina Herszage se faz valer na função de protagonista, sua encarnação de Bia convence rapidamente e torna coerente as mudanças de temperamento, dá sentido aos diversos olhares e naturaliza as falas carregadas de referências ao ultrarromantismo (ou seria naturalismo?) flertando com o desejo de morte sem cair no senso comum que se orienta, na maioria das vezes, pelo movimento gótico. O universo colorido e descontraído da adolescência carioca se mistura com a morbidez introspectiva de voracidade sensacionalista, poderíamos muito bem termos sido agraciados com uma obra “neo-expressionsta burtoniana” (e a palheta de cores, a direção de arte e a iluminação em vários momentos indicam essa possibilidade) se Anita trabalhasse melhor o estranhamento e o choque de perspectivas, de mundos, em vez de tentar conciliar ambas e se prender num limbo que nem auxilia a tensão psicológica proposta. Mate-me por favor parece tentar alcançar um status de cinema intelectual e adolescente e, apesar de vários momentos extraordinários, não chega nem a um, nem a outro. Este confronto, esta dualidade é frequente e nada disfarçada. É reconhecível o esforço de Anita, mas o filme avança pouco e não chega a qualquer lugar conclusivo. Teria sido uma superestimação do público ou o receio de inserir Mate-me por favor em um gênero cinematográfico já existente e a partir disso direcionar os elementos num objetivo menos disperso? Esta é outra questão que um monte de gente levantando-se no mato e caminhando rumo ao amanhecer num plano geral é incapaz de responder.

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