SECA

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Por João Marciano

Seca, de Maria Augusta Ramos, é uma contemplativa narrativa do ciclo da “não-água”. Percorrendo o cenário nordestino acompanhando um motorista de caminhão pipa o filme rastreia visualmente e politicamente o mapa do abandono e da sobrevivência das comunidades afastadas que dependem do veículo e de outras formas emergenciais para terem acesso à água. O protagonista não é o motorista, nem mesmo os habitantes, mas o próprio fenômeno da seca que desenha o sertão livremente enquanto os governantes fazem uso de promessas vazias. Os planos longos contaminam o espectador com o calor e a textura desértica e criam imediata simpatia com um pobre senhor que, movido pela extrema necessidade e fé, cava um enorme fosso na luta pela sobrevivência e, com dois irmãos, tampa os buracos na rodovia asfaltada na esperança de conseguir alguma esmola para comprar água potável. Relatos minimalistas, abordados com uma naturalidade cotidiana, mas de imenso impacto quando tomamos consciência de que se trata realmente de uma realidade mais que recorrente; ficção e documentários se confundem no relato. Até que ponto é encenação? Estas pessoas, o elenco, são vítimas reais da seca? Toda a construção se aproveita do paisagismo quase exótica para reafirmar um discurso que aparentemente já é conhecido, mas cuja voz ainda permanece distante aos ouvidos apáticos.

Com um ritmo arrastado, os oitenta e sete minutos se estendem sem emoção, sem perspectiva de uma reviravolta milagrosa. A espera da prometida e sonhada chuva não se concretiza nem nas letras de música, e a vida do sertanejo é representada mais uma vez como confirmação do imaginário popular: um nordeste seco da vaquejada e da pobreza. Para um filme com uma proposta de denúncia, Seca acaba caindo no senso comum e sua problematização é contaminada por um olhar externo que não se choca com a situação, pelo contrário, a aceita com certo conformismo na maior parte do tempo. Os contrastes entre o urbano e as longínquas zonas afetadas, o poço lamacento sendo cavado e o outdoor de um futuro parque aquático na região formam um quadro quase cômico de tão absurdo. Por isso que Seca é um filme do ciclo da “não-água”, pois seu foco não é em como ela chega, mas o como e quanto ela falta e a maneira como sua escassez modula um modo de vida tão demarcado e peculiar.

O rigor da câmera é surpreendente, os vazios e as inércias presentes no quadro direcionam o olhar praticamente por osmose. O espectador não precisa se esforçar para descobrir o que deve ser visto, porém se faz necessário uma pequena busca pela imagem para que os detalhes minimalistas, praticamente discretos, saltem com a força com que foram programados. Talvez tal perspectiva sirva em defesa ao tempo demasiado dos planos, de mesma maneira que um debate refletindo os significados e sugestões inseridos na leitura do filme amplie ainda mais sua profundidade, todavia perdura-se a sensação de que Seca poderia ser mais econômico e se mostrar um pouco menos cansativo, ou maçante para o espectador mediano sem a paciência demandada.

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