COBERTURA XIV PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA – QUINTO DIA

Flávio Reis

Anos vão e vem e ninguém consegue explicar muito bem o que é cinema. Para alguns, cinema são imagens em movimento, que narram uma história em pequenas partes, sejam histórias lineares ou não. Outros dizem que o cinema, enquanto produção e não espaço físico e/ou maquinário, é uma representação da vida segundo o olhar do ser humano em um determinado espaço e local. Consenso, em torno de uma definição, não parece ser objetivo comum entre todas as vertentes de pensamento que creditam a si o papel de arauto do cinema. Cabe aos cineastas e ao público vivenciar linguagens não convencionais que podem proporcionar mais versões pessoais do que o cinema pode ser ou do que não é. Neste sentido, no dia 15 de novembro de 2018, em Cachoeira, o Panorama colocou um pouco mais de combustível nas discussões sobre as novas linguagens cinematográficas.

A multi-artista queniana Ng’endoMukii apresentou A Febre Amarela, um misto de animação e live action, muitas colagens, em especial um movimento circular em torno de uma mulher negra cercada por produtos de beleza para “alisar” os cabelos. O filme discute, como o título sugere, a imposição social sofrida pelos afrodescendentes para “embranquecer” seus filhos e netos, para que este não sofram preconceito. O filme analisa a mutilação cultural sofrida através de programas de TV e produtos que suprimem o ser negro, transformando toda uma cultura em fetiche.

Durante a Mostra Competitiva VII, o cinema mostrou seu poder de se reinventar através de narrativas que quebram as paredes do convencional Quando o filme Armário, de Marina Pontes começou, apresentado apenas uma tela preta e uma legenda sobre uma conversa de duas personagens, no caso a filha expondo para a mãe sua sexualidade, a sensação é que a qualquer momento o filme começaria a exibir imagens do dramático diálogo. O filme causa certo desconforto para o público, que espera enxergar as reações das duas personagens em cena, mas que aos poucos vai substituindo a frustração de uma sequência de imagens explicativas por uma imersão no diálogo entre as duas, e assim formulando a mise-en-scène até que os créditos anunciam o fim do filme. O voyeurismo nosso de cada dia experimenta não ser cúmplice de uma câmera, aproximando o cinema do que foram as radionovelas dos primórdios do século XX.

Inconfissões, de Ana Galízia, ousadamente transporta o público para as memórias de sua família na figura do seu tio Luiz Galízia. Apesar de algumas inserções de vídeos em uma super 8, o filme, predominantemente, substitui a imagem em movimento por uma sequência de fotos com narração através de cartas pessoais entre o teatrólogo, amigos e familiares. Tais como as cartas de Werther, de Goethe, Ana Galízia se coloca como a observadora de uma história que poderia se perder com o tempo, mas faz questão de situar a vida e a morte desse personagem controverso do teatro carioca das décadas de 70 e 80. Esse é mais um filme que se aproxima do cinema em seu estágio embrionário, seja sugerindo em praticamente todas as cenas de uma reunião familiar para relembrar alguém que já não está mais vivo fisicamente, seja por nos remeter a um passado não muito distante, mas que o tom dramático e erótico permite situar a história do filme para muito além das delimitações do tempo.

Por mais que Mãe?, de Antonio Victor, seja um filme com linearidade e uma narrativa mais próxima do convencional, vemos elementos que distanciam a obra do lugar-comum. Por exemplo quando o filho deitado e a mãe sentada na cama começa a ler uma história e a luz, no tom de vermelho, contrasta com a ternura da cena. A clara referência à Pietà, de Michelangelo, interliga a intolerância como uma prática milenar, uma atitude humana que evoluiu aos patamares que conhecemos hoje. Apesar de uma mãe que beira a condescendência e um filho em quase erupção emocional, o filme rompe com alguns padrões estéticos, como, por exemplo, o balcão da cozinha com a câmera desnivelada, que se transforma em uma balança entre mãe e filho disputando sobre quem tem razão.

Marina Pontes retorna com Lésbica, outro filme com uma linguagem pouco convencional. A realizadora se apropria de termos do universo lésbico, muitas vezes utilizados de forma pejorativa. O filme beira um universo lúdico, com cenas que remetem a programas infantis da TV Cultura da década de 80 (a guerra das aranhas em stop motion, por exemplo), mas que ao mesmo tempo revela que a orientação sexual é o sagrado de cada um, e assim sendo, deve ser respeitado, pois carrega todas as configurações emocionais não de um número estatístico, mas de indivíduo único.

A Mostra Cachoeira VII foi encerrada com o surpreende BR3, de Bruno Ribeiro. Esquetes ambientadas na periferia, nas quais os corpos não são objetos e sim personagens, aliados a diálogos que beiram a materialização da esperança de criar um mundo melhor, dão um tom sensível às histórias apresentadas. O filme foge da narrativa convencional onde moradores da periferia são apresentados como escravos do crime organizado. Aliás, em algumas cenas, o filme abusa da subexposição, reiterando a visão que o “asfalto” tem do “morro”. Há, ainda uma mistura de linguagem cinematográfica convencional, com a “moderna” abordagem dos youtubers, dialogando com a “democracia” de criação e distribuição de conteúdo promovida pela internet.

Em A Triste Figura de Calebe Lopes, culpa e hipocrisia se fundem numa narrativa que não tem medo de se arriscar no cômico, para em seguida nos fazer sentir vergonha de rir do sofrimento alheio. A estranheza em torno dos personagens, com uma fotografia em baixo contraste

E encerrando o dia, o premiado Azougue Nazaré, de Tiago Melo. O filme humaniza a secular tradição ritualística do macaratu, apresentando não só a manifestação cultural, como também os personagens que dão vida e sustentam esse patrimônio brasileiro.

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