Cachoeira. Quem pronuncia o nome já evoca o cinema em sua característica mais elementar. Não somente pela imagem cinematográfica de uma queda d’água, mas porque o fluxo de um córrego, desde o mais remoto vestígio do pensamento humano, serviu como metáfora ao constante movimento da natureza. Humberto Mauro, nosso cineasta fundador, comparou o cinema à cachoeira, por seu dinamismo, beleza e continuidade eterna. E esta comparação serviu para reforçar a relação da cidade que acolheu nosso curso com a fluidez de uma arte em sintonia com a transformação: CineCachoeira.

Foi em continuidade com esta proposta que realizamos, neste primeiro número, um dossiê sobre os 100 anos de cinema na Bahia. Comemoração oportuna para o lançamento da revista. Deixar que as águas do passado se misturem, ou se confundam, com as do presente para que novas leituras atualizem filmes muitas vezes esquecidos.

Pelo volume de textos recebidos e pelo interesse do assunto, resolvemos publicar o dossiê 100 anos do cinema baiano em duas partes. Neste primeiro número, o grande nome é o cineasta baiano Roberto Pires. Dois artigos citam ou desenvolvem estudos sobre a obra deste importante autor da cinematografia baiana: André Setaro, com seu panorama histórico sobre inconstâncias da produção regional, e Rafael de Luna, com uma análise instigante e original sobre o filme A máscara de traição. Reforçando a presença marcante de Roberto Pires nesta edição comemorativa, Oscar Santana, em entrevista dada com exclusividade aos editores de CineCachoeira, relembrou os bastidores em que os dois amigos pioneiros sonhavam e realizavam as primeiras ficções no final de 1950 .

Outro tema destacado neste número foi o cinema marginal baiano. Talvez pela visão transgressora, os alunos redatores da revista, Poliana Costa e Larissa Brujin, optaram por analisar obras como Meteorango Kid e O anjo negro, respectivamente, orientadas pela professora Cyntia Nogueira, que também se debruça sobre esta produção experimental e proscrita. Concluindo o dossiê, André Sampaio, de forma muito pessoal, revela a importância fundadora do documentário Um dia na rampa, de Luiz Paulino dos Santos, e Luís Alberto Rocha Melo destaca o pensamento do crítico baiano Walter da Silveira para a fundamentação teórica do Cinema Novo, completando nosso dossiê.

Outras seções ajudaram a compor este mosaico baiano. Na seção Alguém viu?, originalmente pensada para resgatar a memória de filmes desaparecidos ou nunca filmados da cinematografia brasileira, Prof. Guilherme Sarmiento busca uma polêmica película baiana até o momento perdida: Akpalô, de José Frasão e Deolindo Checcucci. Na seção Antes da tela, trechos do storyboard realizado por Carybé para Vadiação, de Alexandre Robatto Filho, um dos primeiros documentários realizados sobre a capoeira, vieram à luz junto com fotos de still realizadas durante as filmagens antológicas.

De forma mais livre e aberta a outros temas, a seção Artigos recebeu ensaios importantes como o de Fernão Ramos, que vasculha nas universidades brasileiras a construção da matéria Estudos em Cinema; André Lima, que realiza um apanhado do cinema musical brasileiro; e Guilherme Maia, Professor da UFRB, que mostra como a sétima arte, no Brasil, apropriou-se da música moderna para romper com a narrativa clássica. A seção Traduções, por outro lado, traz um artigo inédito de Jacques Aumont, importante teórico francês, traduzido pela Profa Fernanda Martins, cujo mergulho na sombra mostrou um lado pouco conhecido da sétima arte. Por fim, mais uma vez contando com a participação dos alunos da UFRB, a seção Coberturas revela um pouco da programação da primeira edição do Cachoeiradoc, realizado na cidade de Cachoeira, e coordenado pelas Professoras Amaranta César e Ana Rosa.

Resolvemos, neste mergulho inicial, privilegiar diretores pouco lembrados quando se fala em cinema baiano. Como mesmo observou Oscar Santana em sua entrevista a CineCachoeira, Glauber Rocha, mesmo sem o desejar diretamente, acabou deixando à sua sombra outros criadores não menos importantes para a construção desta realidade cinematográfica variada, rica – apesar de inconstante –, cuja produção mereceria maior visibilidade. Outro dossiê está sendo preparado para sanar possíveis injustiças, apesar de um trabalho com estas características não almejar a totalidade, mas apenas produzir um recorte dentro de uma realidade inesgotável.

Antes de encerrar este editorial, gostaríamos de agradecer a Fundação Casa de Jorge Amado, a Ieda e Sônia Robatto, Deolindo Checcucci, Oscar Santana, Rex Schindler, Juliana Barreto Farias, a Wille, César Velame, ao NUATE, a ASCOM, ao CAHL, aos realizadores do Cineclube Mário Gusmão, enfim, a todos que apoiaram nossa iniciativa.

Deixem-se agora levar pelo fluxo de CineCachoeira.