CineCachoeira encerrará o ano prestando uma homenagem ao formato mais original – e esquecido – do cinema: o curta-metragem. Enormes serviços o “pequeno formato” vem prestando à nossa cinematografia desde as origens, e sem esforço podemos elaborar a partir desta perspectiva uma trajetória única, dentro da qual um vigoroso domínio acabou à sombra de obras de maior duração. Das experimentações documentais de Alexandre Robatto Filho e Humberto Mauro, com seus olhares atentos à cultura brasileira, até o surto criativo fomentado atualmente pelo circuito de festivais, revelando novos talentos a cada ano, o curta-metragem parece reivindicar para si uma história que revele sua dinâmica criativa própria, história ainda incompleta e dispersa em catálogos, notinhas de coluna social e textos de cineclubes. Muitas vezes rebelde, outras vezes visionário, foi diversas vezes graças à sua natureza sintética e vigorosa que a produção nacional se manteve diante de suas sucessivas crises. Quando a realização de longas caiu a quase nada, a sétima arte apoiou-se sempre na resistência deste núcleo compacto, um grão incorruptível, camada final onde se alimentam os sonhos.

Privilegiando o curta-metragem tanto em sua abordagem histórica, quanto em suas características inovadoras no tocante à construção narrativa e ao experimentalismo da linguagem cinematográfica, sob o viés documental e ficcional, o dossiê deste número de Cinecachoeira conta com elucidativos artigos especialmente realizados por pesquisadores e cineastas interessados no tema. Roberto Moura, professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense, ilumina uma porção esquecida da história do formato em Durante o cinema alternativo – o curta na década de 1970, compartilhando parte de sua pesquisa em andamento; Guido Araújo, cineasta e produtor cultural baiano, conta um pouco da história da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, especialmente os dois anos em que foi realizada na cidade de Cachoeira em Jornadas em Cachoeira – os anos em que a Heróica recebeu o cinema; Marcelo Ikeda, crítico e professor da Universidade Federal do Ceará, em Novos percursos – um recorte da produção cearense recente analisa o rico painel de novos realizadores do estado; em Orfãos de Syd Field – a escrita em curta metragem, Guilherme Sarmiento mostra as peculiaridades formais das pequenas narrativas; em O Curta em Cannes, Fernanda Aguiar C. Martins comenta uma coletânea de curtas selecionados para a Quinzena de Realizadores em Cannes, desde o ano 2000; os alunos Camila Mota e Emerson Dias discorrem sobre A velha a fiar, de Humberto Mauro, e Saliva, de Esmir Filho, respectivamente. Por fim, uma entrevista realizada com os curtas-metragistas baianos Cláudio Marques e Marília Hughes fecha nossa pesquisa temática desta edição, que ainda publica com exclusividade um documento histórico cedido por Giba Assis Brasil.

Outras seções ilustram o tema proposto pelo dossiê: Lost Filmes, um portal além da vida e Três versões de um sol alaranjado – a criação em roteiro, ambos artigos escritos por Guilherme Sarmiento, fazem parte da Seção Alguém viu? e Antes da tela. O primeiro é sobre um site especializado na divulgação e localização de filmes desaparecidos e o segundo uma pesquisa feita a partir dos três tratamentos do filme homônimo, gentilmente liberados pelo roteirista e diretor Eduardo Valente.

Destaque neste número foi o aumento significativo da participação tanto de alunos quanto de professores do Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, na elaboração da revista. Além de Camila Mota e Emerson Dias, toda a Seção Críticas foi preenchida com textos dos discentes de nosso curso. Larissa Andrade, Diogo Nunes e Diego Jesus analisam Nego fugido, de Cláudio Marques e Marília Hughes, Navarro, de Marcondes Dourado, e Handebol, de Anita Rocha, ambos escritos durante a disciplina de Crítica Cinematográfica realizada pela Professora Cyntia Nogueira, em 2010. Do corpo docente temos a colaboração de Adriano Oliveira com Matrix – a realidade está lá fora, uma instigante viagem filosófica a partir do clássico da ficção científica, e Danillo Barata com Perspectivas do corpo-imagem no nordeste brasileiro, texto fruto de uma curadoria de mostra videográfica, todos publicados na seção Artigos, que também traz O Brasil como o outro – a dicotomia clássica “nós-eles” no cinema, do catarinense Dagoberto José Bodin.

Neste número também trazemos duas novidades: a primeira delas é a volta da seção Traduções, com um texto transposto do francês para o português pela Professora Fernanda Aguiar C. Martins, Breve análise de fotografia de Pierre Verger, de Sandra R. Ramalho e Oliveira, testemunhando a intenção de nossa revista em valorizar os estudos da imagem. A segunda novidade é a concepção de uma seção de quadrinhos dentro de nossa revista, Cinefilia, pensada em conjunto com o quadrinista baiano Marcos Franco.

Agradecemos a colaboração de todo o corpo editorial da revista, ao Cineclube Mário Gusmão, a César Velame, Roberto Henrique Seidel, ao Colegiado de Cinema e Audiovisual da UFRB, bem como a todos os que colaboraram para o lançamento de mais um número de Cinecachoeira.

Boa leitura!