[vimeo 55112939]

Uma das qualidades mais utilizadas para exaltar a mulher é a versatilidade, a capacidade de se transformar em “outras” e realizar várias tarefas ao mesmo tempo sem com isto diminuir a qualidade de suas inúmeras realizações.  Se no fundo destas observações, muitas vezes simplistas e redutoras, subsistir algum fundo de verdade, não poderia haver um número de Cinecachoeira mais adequado para expressá-lo do que este posto diante de seus olhos. Hoje completamos dois anos de existência e, com o tema A Mulher no Cinema, elaboramos um dos dossiês mais “versáteis” desde seu lançamento, em outubro de 2010.  Aqui estão publicados artigos redigidos nos mais variados estilos e a partir de inquietações e vozes com matizes das mais contrastantes: de relatos íntimos, subjetivos, a estudos eruditos; de ensaios poéticos, a levantamentos quantitativos; tudo coube na revista, talvez, por ser hoje o momento de expressar formalmente este caráter conciliatório, múltiplo, tido como uma das marcas constitutivas do feminino.

Representando a faceta memorialística de Cinecachoeira 4, escrito numa primeira pessoa evocativa, por vezes nostálgica, temos os artigos Eu, assistente de câmera, mulher, escrito por Renata Reis, e As musas da pornochanchada, do jornalista alagoano Jorge Barbosa. O primeiro trata da inserção da autora em um nicho de mercado geralmente ocupado por homens: a fotografia audiovisual; o segundo, relata a descoberta da sexualidade e da cinefilia por alguém que viveu a década de 1970, o auge da ditadura militar, admirando as atrizes da pornochanchada nos cinemas de Maceió.

Já o perfil ensaístico, privilegiando as análises que transitam entre história, psicologia e sociologia, se coloca na revista através dos textos Como era gostoso o meu francês, os índios tupinambás sob a ótica do feminino, de Juliana Barreto Farias, uma pesquisa reveladora da representação da indígena brasileira no filme de Nelson Pereira dos Santos, e A imagem ambígua – narração e desejo, de Rita Lima, sendo este último o único a tratar de obras estrangeiras, comparando o livro Orlando, de Virgínia Woolf, ao filme homônimo para desconstruir noções muito fechadas de gênero. Tangenciando este universo ensaístico, mas se colocando como um panorama histórico sobre a presença da mulher no cinema brasileiro, temos ainda Carmen santos – sob a luz das estrelas, de Ana Pessoa, um perfil biográfico desta produtora e diretora pioneira, e Femina – contribuição para um cinema mais feminino, de Paula Alves, um grande apanhado quantitativo sobre a ocupação do mercado de trabalho cinematográfico pelas mulheres da década de 1960 até os dias de hoje.

Finalizando o dossiê, os quatro textos que compõem nosso reconhecimento ao trabalho de Helena Ignez, atriz e diretora homenageada nesta edição. Temos o artigo histórico sobre sua trajetória artística elaborado pelas alunas da UFRB, Camila Yallouz e Glenda Nicacio, A 24 quadros – tempos e movimentos em Helena Ignez; a descrição das influências do romantismo alemão sobre o filme Canção de Baal, escrito pela Professora Angelita Bogado, e uma crítica inédita realizada por Ismail Xavier, onde o filme Luz nas trevas ganha novas conotações a partir da perspectiva única de um dos maiores escritores de cinema brasileiro. Por fim, uma entrevista com a homenageada do semestre feita em conjunto com Cristian Borges na cidade de São Paulo.

Mas a revista não fica unicamente no dossiê. Outras seções também trazem novidades neste novo número de Cinecachoeira. Organizada pela Professora Fernanda Martins, a Seção Artigos trás textos interessantes, com perfil multidisciplinar, onde o cinema dialoga com a antropologia e a filosofia. José da Silva Ribeiro, coordenador do Laboratório de Antropologia Visual, Universidade Aberta de Lisboa, cria interessantes pontes entre a construção da teoria do cinema com as teorias antropológicas em Cinema e antropologia; Silvia Aguiar Carneiro Martins elenca as principais produções dos filmes etnográficos de pesquisadores do Laboratório de Antropologia Visual em Alagoas em Índios e registros fílmicos; dois importantes pesquisadores de Pernambuco, Paulo Carneiro da Cunha Filho e Alexandre Figuerôa contribuem com o registro de uma polêmica intelectual envolvendo filósofo Evaldo Coutinho e o romancista Hermilo Borba Filho, na década de 1970, e uma análise sobre a produção do documentário brasileiro contemporâneo, respectivamente, em Hermilo contra Evaldo – a primeira teoria do cinema do Brasil e Cinema documentário, ou não – o real e a poética do cotidiano em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e Avenida Brasília Formosa.

Na seção Alguém viu?, mais uma vez, contamos com a colaboração do cineasta e crítico José Umberto, que nos doou seu acervo pessoal para publicarmos, aqui, uma experiência editorial na qual foi coordenador, a Revista Filme livre. O primeiro número trás artigos de André Setaro, Rogério Sganzerla, dentre outros, construindo um interessante painel da realização cinematográfica no início da década de 1980. Em Antes da tela, publicamos o roteiro do filme Sudoeste, escrito por Guilherme Sarmiento e Eduardo Nunes, atualmente em cartaz no Rio de Janeiro.

Estamos preparando também algumas novidades que serão postadas no início de dezembro. Sete curtas metragens realizados na disciplina Oficina Orientada de Audiovisual V, realizados especialmente para a revista, integrarão o dossiê temático, dando prosseguimento ao nosso desejo, especialmente do colega Cláudio Manoel Duarte, de tornar a publicação mais em conformidade com a interface virtual. Mais adiante serão postados ainda dois textos na Seção Artigos: O Cavalo de Turim em Dez Pontos, de Luís Mendonça, e A fala e os Sons na obra de Jean Renoir, escrito pelo pesquisador e teórico francês Michel Marie.

Para quem não reparou, a revista também está de cara nova –, mais uma vez, algo extremamente pertinente quando o assunto é a mulher no cinema! Repaginada, com uma distribuição mais racional e uma diagramação mais leve, fruto do trabalho e da criatividade de Cesar Velame, um dos mentores do projeto visual de Cinecachoeira. Vai aqui nosso agradecimento especial a ele, Camila Mota, Cyntia Nogueira, Evandro de Freitas, ao Cineclube Mário Gusmão, Juliana Barreto, Fernanda Martins, Helena Ignez, José Humberto, Eduardo Nunes… E a todos que colaboraram para que mais um número da revista se tornasse realidade.

Obrigado!