Três anos de Cinecachoeira. O tempo passou rápido e desde que foi disponibilizada na internet – em outubro de 2010 – a publicação vem se renovando, seja tornando sua página mais limpa para o acesso dos leitores, seja anexando vídeos à informação escrita, tentando, dentro dos limites de um projeto de extensão, atrair mais leitores sem abrir mão da qualidade do texto e do perfil acadêmico exigido por um projeto, sobretudo, saído de uma universidade. Acho que, hoje, o grande desafio da revista é formar um corpo de redatores mais coeso, coerente, de modo a que a revista fique mais prospectiva e menos informativa, ou seja, que seja um vetor de transformação do presente ao invés de um simples olheiro do passado. Este é um dos papéis fundamentais da crítica cinematográfica e que a Cinecachoeira não poderá se furtar de assumir nos próximos anos: estar atenta a uma nova geração de cineastas que surge, especialmente na Bahia, e dar seu testemunho desta produção nascente através de palavras justas e, ao mesmo tempo, vivas.

Por isso, não podemos deixar de destacar aqui, no presente dossiê sobre Dramaturgia Contemporânea, o texto do crítico, idealizador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema e cineasta Cláudio Marques, que, em Depois da chuva – o processo de roteirização, nos oferece o relato da criação do roteiro de seu primeiro longa-metragem, com direção compartilhada com Marília Hughes, acompanhando sua escritura desde a origem da ideia inicial até o aprimoramento do texto nos inúmeros laboratórios e consultorias – nacionais e internacionais – pelos quais teve a oportunidade de passar. Já em Um Olhar de dentro, Rubens Rewald avalia quatro produções recentes realizadas em São Paulo ( Riocorrente, de Paulo Sacramento, Rio Cigano, de Julia Zakia, O que se move, de Cristiano Gotardo e Super nada, de Rubens Rewald e Rossana Foglia) tentando oferecer uma painel de inquietações comuns e semelhanças de formação entre os diretores, todos egressos de faculdades de cinema. Já Raimundo Matos de Leão aborda de forma mais direta a importância das escolas de artes cênicas no cenário baiano, responsáveis pela formação de grandes atores do cinema e da teledramaturgia brasileira no texto Dos palcos à tela:espaços dos intérpretes da Bahia. De certa forma, temos o prolongamento destas questões retomadas na entrevista inédita dada pelo ator João Miguel à Cinecachoeira, que elucida o método com o qual o ator construiu personagens marcantes como Nonato, de Estômago.

Além de textos com um perfil mais híbrido, transitando entre a abordagem histórica, o relato pessoal e a crítica, temos alguns ensaios que enveredam por uma discussão mais teórica sobre a composição dramatúrgica no dossiê desta edição. Em A poética do multiplot, Guilherme Sarmiento tenta encontrar um conjunto de elementos de natureza narrativa que fazem com que o multiplot seja reconhecido e consumido como um filme comercial; João Marciano, a partir da obra de Rodrigo Aragão, procura encontrar as características do gênero de terror no Brasil em Rodrigo Aragão, a crença no terror brasileiro; em um revelador artigo sobre o documentário, Cláudio Bezerra demonstra que um gênero aparentemente avesso à ficção também se utiliza de construção dramática em Dramaturgia no documentário: a questão da personagem; aproveitando-se deste ambiente onde a série e o seriado ganham um novo fôlego dentro da TV, Danilo Scaldaferri revela a estrutura jazzística de uma direção coletiva em Cidade dos homens – a dramaturgia em forma de jazz; por fim, uma imperdível entrevista com Júlio Bressane, realizada por Virgínia Flores, põe a nu a importância dramatúrgica da banda sonora em Vestígios de um encontro com Júlio Bressane – por uma dramaturgia do som.

Além da seção dossiê, debruçada sobre a dramaturgia contemporânea, temos ainda algumas surpresas neste número. Gentilmente, Marina Meliande liberou o roteiro de A alegria para que publicássemos em Antes da tela. Na seção Cobertura fomos até Penedo, cidade histórica de Alagoas, e presenciamos a terceira edição do Festival de Cinema Universitário do estado, produzido pela UFAL. Raquel Celestino e Tiago criticam o curta irreverente Calma, Monga, calma, de Petrônio de Lorena na Críticas. Mais uma vez, através da seleção de Fernanda Martins, na Artigos temos James Benning e o comentário à técnica em 13 lakes, onde Luís Mendonça analisa a relação entre técnica e paisagem na obra do cineasta independente americano e Limite experimental, um estudo sobre a potência poética do clássico de Mário Peixoto, escrito por Amanda de Freitas Coelho.

Para finalizar, nossos agradecimentos a João Miguel, Cláudio Marques, Rubi Adelen, João Marciano, Fernanda Martins, e, em especial, a Camila Mota. Obrigado Camila!

Dedicamos este número à memória de Henrique Roza.