Após um semestre conturbado, não houve como colocarmos on-line um novo número dentro do prazo desejado e este ano chegaremos ao seu final com apenas uma edição da revista Cinecachoeira. Mas, como lembrava o velho Carlos Drummond de Andrade, o melhor a se fazer com uma poesia recém-escrita é colocá-la na gaveta, esquecê-la ali e, num momento de desaviso, ao buscar o boleto de pagamento da luz, encontrar a página amarelada em cujo centro se organizam as estrofes de um maravilhamento. O tempo ajuda a assentar as ideias e a torná-las monolíticas, caso resistam a suas asperezas. E, nesse sentido, o tempo conspirou a favor desse novo número. Espero que essa demora tenha feito bem a nossa revista e o leitor, como o poeta, se surpreenda com os textos aqui amadurecidos e tenha a mesma impressão que tive ao ler essa imersão profunda e multifacetada no diálogo entre cinema e poesia, após quase um ano de “engavetamento”.

Na Seção Dossiê (Cinema e poesia) temos textos que se movimentam entre o desejo de legitimar teoricamente esta relação rica, através de um discurso objetivo, e aquele de integrar na própria tessitura teórica e analítica os borbotões de imagens capazes de romper a distância entre sujeito e objeto, fornecendo vislumbres de uma prosa barroca e mágica. Em Poesia. Poética. Poético Roberto Duarte descortina a poética como um termo adjetivo e substantivo através de uma viagem na história das formas; Eduardo Portonovo vai avaliar a criação poética moderna a partir do encontro entre a sensibilidade criadora e a espectatorial em Cinema e poesia: visitação do sensível; seguindo com a abordagem de viés teórico, Poesia no cinema: questão de sonho ou loucura?, escrito por Cristian Borges, realiza um panorama sobre o potencial poético da sétima arte e, mais adiante, o cineasta Eduardo Nunes fornece a chave de suas inquietações artísticas em A linguagem secreta, ao unir Tarkovsky, Haikai e ideogramas chineses; entrando por um viés político e sociológico, Guilherme Sarmiento procura nos filmes brasileiros modernos o contexto imaginário comum para a figuração do poeta em A representação do poeta no cinema brasileiro; interessada nas relações implícitas entre arquitetura, cenário, enquadramento e montagem nos filmes de Alberto Cavalcanti, Amanda de Freitas Coelho sonda o universo criativo do diretor em Poesia em imagens – sobre o cinema de Alberto Cavalcanti. Temos ainda artigos que se debruçam sobre uma única obra para com ela iluminar o tema, privilegiando a análise crítica, como fizeram João Marciano Neto e Ricardo Lessa Filho em Lirismo e violência em Mr.Vingança e Verão Violento: poesia, paixão e história, respectivamente. Por fim, uma viagem lisérgica, existencial e filosófica onde criação e misticismo se consagram em O sonho inciciático do realizador xamã, de Dellani Lima. Completando o dossiê, uma reveladora entrevista com o diretor Ruy Guerra realizada por Eduardo Portanova, na qual o autor reflete sobre a relação entre poética e liberdade artística.

Variando um pouco o conteúdo da seção Traduções, Fernanda Martins traduz uma inédita entrevista com o cineasta americano John Dante, realizada pelo editor e professor italiano Toni D”angela. Ainda nos brinda com um outro texto inédito do Professor e Pesquisador Michel Poivert, construindo uma interessante e fundamental ponte entre os processos criativos do surrealista André Breton, a teoria do automatismo, e a fotografia em Uma aventura da luz em tom político – André Breton e a fotografia.

Destacamos nessa sétima edição uma significativa participação dos alunos tanto do curso de cinema quanto de jornalismo, colaboradores cada vez mais propositivos no processo de elaboração da revista como um todo. Na seção Cobertura, Thainá Dayube, Rafael Beck de Andrade e Melissa Silsame testemunharam mais uma edição do Cachoeira Doc, festival de documentário de Cachoeira, e generosamente descreveram suas impressões para serem compartilhadas no espaço da revista. Filipe Barbosa ocupa a seção Alguém viu? com um interessante artigo sobre um filme desaparecido de nossa cinematografia na época da ditadura militar, 69 – a construção da morte, dirigido por Orlando Senna.

Para finalizar este breve editorial, meus agradecimentos a César Velame, aos colaboradores da revista, aos alunos empenhados em transformar a CineCachoeira em uma interface importante para sua formação e um veículo capaz de abrir suas mentes para o imponderável das imagens.