Em seu clássico A era dos extremos, Hobsbawn afirmou que o século XX terminou antes do tempo. Acabou no final da década de 1980. E o século XXI verá o seu fim com quantas décadas de antecedência? Vivemos em uma época onde a História está a cada dia mais curta e, por isso, cada vez mais próxima do presente. Engajar-se na História, portanto, hoje, mais do que nunca, é agir sobre o mundo – consciente de que toda ação guarda a memória de gestos muitas vezes esquecidos, mas significativos. É com esse espírito que a Cinecachoeira hoje lança mais um número em período de greve. De alguma forma, grande parte dos textos que compõem o dossiê Cinema e História, tema desta publicação, preocupam-se em polir superfícies capazes de espelhar o passado no presente, ou de ancorá-las em questões que ajudem a tornar visíveis as motivações políticas ou ideológicas que dimensionam as representações cinematográficas. Organizada conjuntamente com os professores Leandro Antônio de Almeida (UFRB) e Juliana Barreto Farias (UEFS), esta nova edição de Cinecachoeira ajuda a compreender os laços entre duas disciplinas que lidam de maneira direta com a construção da memória.

Em Catedrais, livros e cineramas: tecnologias de imersão, João luiz Vieira vai buscar nas igrejas da Idade Média as construções de uma arte imersiva; Guilherme Sarmiento analisa os vínculos originais entre tecnologia da imagem e o fantasma, estreitadas no século XIX, para explicar a moda dos filmes espíritas no Brasil em Além do cinema: a secularização dos fantasmas. A partir de suas práticas de ensino na rede de educação estadual do Rio de Janeiro, Erika Bastos Arantes disserta sobre as dificuldades de se quebrar os estereótipos africanos presentes nos filmes sobre o continente em Cinema africano, a lei 10.639 e o currículo de História, ideia complementada pelo texto da aluna de história da UFRB Patrícia de Santana Souza em Da tela para a história: representações da África em Tarzan, onde o “rei da selva” torna-se o porta-voz da ideologia colonial. A partir da leitura crítica do ensaio já clássico de Marc Ferro “O filme: uma contra-análise da sociedade?”, Juliana Barreto Farias procura entender o papel dos “marginalizados” na realização fílmica em Marc Ferro e as favelas cariocas. Continuando nestes temas tão caros à cultura do Recôncavo, Carlos Eugênio Libano Soares mergulha na filmografia glauberiana em Negros de Glauber: raça, mística e identidade no Cinema Novo; Rosana de Jesus Andrade conta um pouco da história do cinema da cidade de Cachoeira a partir do viés social em Cinema em Cachoeira: a vida em movimento. Para encerrar o dossiê, uma preciosa biografia cinematográfica do excêntrico escritor João de Minas em Um astro da literatura: João de Minas vai a Hollywood, escrito por Leandro Antonio de Almeida e uma entrevista inédita com Silvio Tendler realizada pelas historiadoras Juliana Barreto Farias e Mariza de Carvalho Soares.

Além da seção dossiê, temos na seção artigos textos com abordagem diversas não menos interessantes. Ricardo Lessa Filho analisa a obra do cineasta americano Douglas Sirkis a partir do conceito de “topofilia” do geógrafo e acadêmico chinês Yi-fu Tuan em O melodrama em Douglas Sirkis: o testemunho do amor; Camila Suzuki testemunha como a mulher era representada no primeiro cinema em A representação da mulher em Alice Guy e Louis Feuillade; escrito a quatro mãos por Eduardo Portanova e Lisandro Lucas, a face trágica de Woody Allen toma forma em O humor trágico de Woody Allen: filosofando com o martelo. Por fim, duas críticas imperdíveis: uma enviada por uma leitora e agora colaboradora, Isa Lima, sobre o filme da diretora Júlia Murat Histórias que só existem quando lembradas, e o mergulho de nosso bolsista João Marciano em um filme de terror pra lá de estranho, dirigido pela iraniana-americana Ana Lily Amirpour, A girl walks alone at the night.

Não poderíamos deixar de agradecer a colaboração nesse número de Leandro Antônio de Almeida, Juliana Barreto Farias, Mariza Soares, Cesar Velame e a todos que de uma forma ou de outra nos ajudaram a levar o projeto adiante. Obrigado!