ENTREVISTA COM ANDRÉ LUIZ OLIVEIRA

Alguns críticos consideram Meteorango Kid como um dos filmes que inauguraram uma estética (ou um movimento) chamado de Cinema Marginal. De que maneira você, hoje, vê a obra dentro desse contexto? Considera-se parte deste movimento?

De fato, Meteorango Kid foi um dos primeiros filmes da geração do chamado Cinema Marginal – ele foi realizado no mesmo ano em que foram feitos O anjo nasceu e A mulher de todos, de Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, respectivamente, pois estavam no mesmo Festival de Brasília de 1969. Se os críticos dizem que ele inaugurou a estética do chamado Cinema Marginal não está correto, pois o Sganzerla já havia feito o Bandido da Luz Vermelha e, antes dele o Ozualdo Candeias havia feito A margem e o baiano Fernando Coni Campos Viagem ao fim do mundo. Esses sim, na minha opinião, foram os filmes pioneiros com estética despojada, desconcertante e marginal por ser diferenciada do Cinema Novo. Meteorango Kid é mais um filme portador dessa estética transgressora, com características próprias, originais e personalidade marcante própria da Bahia/Salvador da época. O movimento foi observado e criado pelos críticos de forma a protocolar um momento histórico do cinema brasileiro. Nunca fiz parte de movimento algum, fiz o filme e segui meu rumo sem me preocupar com nada disso. Entretanto, pelo barulho que o filme causou na época e o interesse que ainda desperta na juventude de hoje, vejo que ele foi e continua sendo um filme explosivo, geracional e de grande representatividade desse cinema contestador chamado Cinema Marginal.

O filme Meteorango Kid foi lançado em 1969, um ano após a decretação do traumático AI 5. Como foi a relação do filme com a censura? Gostaria que falasse um pouco sobre as circunstâncias de seu lançamento, (os lugares que foi exibido, a recepção de público e a recepção crítica)

O mais apropriado é dizer que o AI5 teve grande influência na realização do roteiro e nas filmagens cujos reflexos estão nas imagens do filme.

Com relação ao lançamento, ele não foi lançado em 1969, ele foi filmado e apresentado no Festival de Brasília no final neste ano. Ele não foi lançado porque a censura o prendeu, impedindo assim a sua carreira nos cinemas que provavelmente teria sido muito boa devido a repercussão do Festival com os prêmios do Júri Popular, Crítica e Margarida de Prata da CNBB. Foi meu pai, Milton Oliveira, nascido em Mundo Novo, na Chapada, produtor do filme, quem conseguiu liberar o filme um ano depois de uma peleja gigante e exaustiva com os censores em Brasília. A essa altura, o lançamento já estava esvaziado como os censores queriam pois, um ano depois, as circunstâncias eram outras, já não se falava mais no filme, não havia mais um clima tão favorável e os filmes já eram todos coloridos. Mesmo assim, ele foi lançado no Rio inaugurando o circuito Cinema 1, em Copacabana; depois no Augusta, em São Paulo; no Cine Tamoio, em Salvador e em outros cinemas do país. Mas a sua maior circulação durante o ano em que estava censurado foi nos cineclubes com projeções clandestinas em 16mm.

Em alguns momentos do filme, percebe-se uma fina e às vezes contundente crítica à cartilha cinemanovista. O nome de Glauber Rocha é citado em uma circunstância muito engraçada e irônica… Como era sua relação com o Cinema Novo e de que forma alguns de seus líderes receberam o filme?

Na realidade, no meu entender, o dito Cinema Marginal é filho do Cinema Novo com o Tropicalismo. Sem o CN não haveria o cinema que praticamos naquela altura porque ele era a nossa referência máxima. O velho eterno Freud detectou e explicou o desejo do filho assassinar o pai e tomar o seu lugar. Nós amávamos o Cinema Novo e, no entanto, queríamos destruí-lo pelo desejo de quebrar com todos os tabus estéticos, linguísticos, políticos, poéticos e formalísticos que ele representava. Mas era um impulso que se tornou “movimento” muito menos importante no cenário nacional e internacional e não tínhamos uma turma, uma representação coesa, um grupo articulado que desse consistência teórica ao que fazíamos de fato, não almejávamos isso, pelo menos eu. E eles tinham muitos e melhores teóricos, articuladores, oradores, enquanto a nossa era radicalizar, esculhambar, quebrar tudo, arriscar e, ou ironizar.

Quanto ao pessoal do CN, sempre me trataram com um paternalismo elegante e carinhoso. Fiz ótimas amizades e nunca me senti em confronto com eles. Pelo contrário, fui acolhido com grande entusiasmo por alguns, reconhecimento e respeito pela maioria, até hoje. Convenhamos que o CN era muito mais potente. Entretanto, fizemos o nosso papel com a virulência necessária que nos coube no momento.

Meteorango Kid ainda é um filme muito atual, por colocar em foco uma crise ideológica que se arrasta até os dias de hoje. Qual a sua perspectiva diante dessa realidade? Considera que ainda há espaço para experiências radicais no cinema, que fujam às expectativas do mercado e ao “politicamente correto”?

Acho que é um filme atual e será sempre, não só “… por colocar em foco uma crise ideológica que se arrasta até os dias de hoje”, como você falou mas por levantar e colocar em cheque questões tabus do comportamento humano como, por exemplo, o assassinato dos pais negativos, a questão da maconha explícita, o homossexualismo sem estereotipias, etc. Mas também, e sobretudo, pela sua linguagem poética/transgressora, pela sua ingênua irresponsabilidade. Essas disposições individuais e geracionais expressas no filme, naquele momento histórico/político/cultural do país, numa Salvador provinciana, realmente foi um registro memorável, de grande densidade e, por tudo isso, creio, a sua atualidade. Essa conspiração artística/cultural/social e política que nos levou a realizar Meteorango Kid foi consequência da coragem das pessoas envolvidas e disponíveis como eu, meu pai, meus amigos, atores, parentes colaboradores, todos que me ajudaram a realizar o filme.

É muito ampla e complexa essa pergunta pois refere-se a processos antagônicos e exige uma exposição mais longa. O que posso te dizer, em síntese, é que do meu ponto de vista, há e sempre haverá espaço para um artista se manifestar com a radicalidade necessária em qualquer campo da arte, mesmo no audiovisual, que exige mais orçamento. A expectativa de mercado é outra coisa, é o lado oposto da autoralidade radical. Veja, por exemplo, a obra de Luiz Rozemberg Filho, que pouquíssimas pessoas conhecem. Ele tem mais de quarenta filmes radicais maravilhosos entre curtas, médias e longas e a grande maioria nunca foi lançada ou distribuída nos cinemas. Eu também tenho alguns longas, curtas e médias, que nunca chegaram às telas como O Cozinheiro do Tempo, O Exu Iluminado, Sagrado Segredo (este, lançado e não visto). Isto porque não há mercado no Brasil para os filmes brasileiros feitos para o suposto mercado, muitíssimo menos para os que não são feitos com esta prioridade, os que são realizados por artistas autorais que querem expressar suas ideias e inquietações e que, muitas vezes, não excluem o “mercado” como A Lenda de Ubirajara (meu segundo longa ficção), que teve razoável carreira comercial, e Louco por Cinema que poderia ter tido se tivesse sido lançado adequadamente. Ou seja, embora na última década a situação da distribuição/exibição esteja se modificando para melhor, o mercado brasileiro ainda não é dos brasileiros, está ocupado e tem exigências que eu não estou disposto a seguir pois acho que o mercado é secundário e consequência, não prioridade. Os filmes que citei, por exemplo, O Cozinheiro e Exu têm 52′ e 60′ respectivamente e não cogitei aumentá-los de duração para atender ao protocolo do mercado exibidor, apenas fiz os filmes como queria e na duração que deveriam ter. Essa é uma experiência que pode ser vista como radical, mas nós, cineastas autorais e independentes, fazemos filmes por uma necessidade da alma e não do mercado. Muitos cineastas radicais passaram muito tempo sem filmar por causa disso, como o mago Jodorowsky, por exemplo. Não temos opções, o nosso cinema é assim – como diria o querido e saudoso Carlão Reichembach – tortos. Sem nenhuma crítica ou restrição a quem faz filme bom pro mercado e que está dando a sua contribuição para a ampliação e consolidação de um mercado necessário ao cinema brasileiro.

Sobre o “politicamente correto” fica ainda mais ampla a pergunta e muito mais difícil a resposta. O que é politicamente correto? É uma ordem de que natureza? Ditada por quem? Pelas normas da sociedade vigente? Pelo consenso estético do momento? Ou pela consciência humanística planetária? Isso vai muito longe e em cada sociedade uma ordem estabelece esse parâmetro. Mas, o artista não obedece ou não deveria obedecer a esses limites. O politicamente correto para ele deve ser a reflexão (nos dois sentidos) artística do seu nível de consciência e que seja feita, preferencialmente, com algum talento.

Tem visto a produção brasileira contemporânea? O que te instiga hoje ao assistir um filme?

Não tenho assistido filmes brasileiros. Tenho pouco tempo disponível. Fiz 69 anos e seleciono bastante as minhas atividades diárias como tocar, compor, estudar sitar, escrever auxiliar minha mulher no seu trabalho de musicoterapia, cuidar da chácara, dos cachorros, dos projetos em andamento, etc, etc. O que me instiga em ver filmes hoje em dia é a comodidade… Tenho um projetor com telão em casa e só assisto filmes aqui quando me dão de presente. Vejo alguns documentários da Netflix. Vejo ainda no youtube – através de diretores/produtores internacionais – filmes inéditos para o Festival Cinema Transcendência que realizo em Brasília desde 2013.

Está trabalhando em algum projeto? Poderia compartilhar com a gente?

Com prazer, compartilho os que já estão em andamento: em pré-produção do filme de longa metragem Um épico brasileiro – porquê não?, documentário sobre o projeto de filme Viva o povo brasileiro, que trabalhei por 8 anos na adaptação do livro de João Ubaldo e não consegui realizar. Em finalização do documentário de longa metragem, Mensagem de Fernando Pessoa – mito música e o processo de realização do Projeto Mensagem, no qual musiquei todo o livro homônimo de Fernando Pessoa, que gerou a gravação de 3CDs e dois DVDs lançados em 2014. O doc A canção de Lorenzo, sobre o trabalho com a minha mulher, a musicoterapeuta Clarisse Prestes, com crianças autistas. Estou escrevendo o meu segundo livro Sagrado segredo sobre o processo de realização do meu filme, do mesmo nome. Fico por aqui.

 

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